Em 2010, o terremoto que devastou o Haiti matou mais de 200 mil pessoas e deslocou milhões. Nos anos seguintes, uma parte significativa dos haitianos que deixaram o país escolheu o Brasil como destino — atraídos pela presença de tropas brasileiras na missão de paz da ONU e por uma economia que, naquele momento, crescia.

Hoje, o Brasil tem uma das maiores comunidades haitianas fora do Caribe, com estimativas que variam entre 150 mil e 200 mil pessoas. No Sul do país — especialmente no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — essa presença é particularmente visível, concentrada em cidades industriais que absorveram os imigrantes como mão de obra para frigoríficos e indústrias.

Quinze anos depois, como está essa integração?

A resposta é complexa. Economicamente, os haitianos se integraram ao mercado de trabalho formal — muitos têm carteira assinada, pagam impostos, contribuem para o INSS. Alguns abriram negócios, formaram famílias, criaram raízes.

Mas a integração social é mais lenta e mais difícil. O preconceito racial é uma realidade cotidiana relatada por praticamente todos os imigrantes ouvidos pela Crônica Livre. A barreira linguística, que diminuiu com o tempo, ainda existe para os que chegaram mais recentemente. E o acesso a serviços públicos — especialmente saúde e educação — ainda apresenta obstáculos.

"A gente trabalha, paga imposto, cria os filhos aqui. Mas às vezes ainda sinto que não sou bem-vindo. Não de todo mundo, mas de alguns. E isso dói", diz Jean-Pierre, 38 anos, que vive em Caxias do Sul há 12 anos e trabalha como técnico de manutenção.