A Livraria Palavras Cruzadas funcionou por 22 anos na Rua da Praia, no centro de Porto Alegre. Era o tipo de lugar onde você entrava para comprar um livro e saía duas horas depois, depois de uma conversa com o dono sobre literatura gaúcha, política ou futebol. Em março deste ano, ela fechou as portas.
Não foi a primeira. Nos últimos cinco anos, Porto Alegre perdeu pelo menos 18 livrarias independentes — cerca de 30% do total que existia em 2020. A tendência não é exclusiva da capital gaúcha: é um fenômeno nacional, acelerado pela pandemia e pela concorrência das grandes plataformas de e-commerce.
"A livraria independente não é só um ponto de venda. É um espaço de curadoria, de encontro, de formação de leitores. Quando ela fecha, perde-se algo que não tem substituto digital", diz a pesquisadora de políticas culturais Ana Beatriz Melo, da UFRGS.
Os números do setor são preocupantes. O faturamento das livrarias físicas caiu 22% entre 2019 e 2024, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro. As grandes redes resistem melhor, mas as independentes — que muitas vezes são o único ponto de acesso a livros em bairros periféricos — são as mais vulneráveis.
Há iniciativas de resistência. Algumas livrarias se reinventaram como espaços culturais, com programação de eventos, clubes de leitura e cafés. Outras apostaram na especialização — literatura infantil, quadrinhos, livros usados. Mas a luta é dura.
A Crônica Livre visitou cinco livrarias independentes que ainda resistem em Porto Alegre e conversou com seus donos sobre estratégias de sobrevivência e sobre o que significa manter esses espaços vivos.